As luzes do Prata

Um lugar isolado e muitas vezes esquecido ganha lampejos de luz. O Correio visita a comunidade quilombola do Prata e acompanha a ação de uma ONG para iluminar a região.
Postes sustentáveis implantados nas moradias construídas pela AGEHAB
As avenidas largas e a arquitetura moderna de Brasília estão a apenas 400km. Mas, na Comunidade do Prata, parte do território Kalunga, maior povoado quilombola do país, o que se vê são casas com teto de palha, fogões à lenha e estradas de terra. Uma simplicidade que indica muitas carências, como a falta de rede elétrica e de saneamento. Foi para resolver um desses problemas — o da escuridão — que voluntários da ONG Litro de Luz passaram oito dias no local, no começo deste mês.
A comunidade fica na região da Chapada dos Veadeiros, fronteira entre Goiás e Tocantins, à beira do Rio da Prata, do qual os moradores retiram água para beber, limpar a casa, tomar banho e cuidar dos animais e do plantio, as principais fontes de alimento e renda. As dificuldades são imensas e constantes.
Como só há duas estações bem definidas, a seca e a chuvosa, ora as safras estão ameaçadas pelo sol intermitente, ora as cheias do rio impedem a locomoção e avançam sobre terrenos, pertences e casas.
O difícil acesso à comunidade é um dos principais motivos da falta de estrutura. O trajeto em estrada de terra até Cavalcante (GO), a aproximadamente 100km, leva mais de duas horas e meia. Serras íngremes e rios sem pontes fazem parte do caminho. Os moradores dependem de caminhões para sair da comunidade e chegam a pagar R$ 35 por uma vaga nas caçambas.
Como não há ligação com a rede elétrica, a comunidade recorre a velas e lampiões a querosene, mas a fumaça danifica os poucos móveis e prejudica a saúde. Apenas três das mais de 80 famílias da região têm geradores, sendo que dois são usados em pequenos estabelecimentos comerciais. A iluminação precária também traz insegurança. Sair à noite pode significar acidentes nas trilhas esburacadas ou encontros com animais perigosos.
Ultimamente, furtos às residências também têm sido uma queixa. A primeira a contar essa história é dona Lúcia de Jesus, que vive sozinha em uma das casas mais próximas à Escola Municipal América de Deus Coutinho. Na primeira visita da equipe da Litro de Luz, que tem o objetivo de marcar o horário de instalação dos postes, ela mostra as três janelas arrombadas. Está feliz, então, com a chegada da luz? “Tô muito alegre. Já ganhei casa, agora luz! Só falta água”, responde.
 
DEPOIS DA TEMPESTADE
A Litro de Luz chegou à Comunidade do Prata a partir de um convite da Agência Goiana de Habitação (Agehab), que assiste as famílias desde que uma enchente, no início de 2016, destruiu 27 casas próximas ao rio. “Choveu direto por oito dias. No dia que encheu, ainda tava clareando, tomou a casa toda”, conta Ezimar da Conceição, que, como dona Lúcia, viu o Prata carregar tudo o que tinha. “A água chegou até a altura da cama. Salvamos só os documentos. O resto, a água levou.” Agora, ele; a esposa, Neusimaria; e os dois filhos, de 9 e 1 ano e cinco meses, vivem em uma das casas-modelo construídas pela Agehab, justamente as escolhidas para receber os postes com lâmpada LED abastecidos com energia solar.
Ezimar é um dos mais ansiosos para receber a tecnologia. Quando a equipe responsável pela montagem do equipamento chega à sua casa, numa manhã de terça-feira, ele logo aponta os locais onde quer instalados os dois postes que vai ganhar: um na entrada e o outro no quintal, para iluminar parte do roçado e o galinheiro.
Saulo Silas e Gisela Provasi, voluntários da ONG, começam então a unir as várias peças que integram o kit: cano de PVC, fiação, bateria, placa fotovoltaica, lâmpada LED e garrafa PET. O resultado são postes de 2,5m de altura com um pequeno painel solar no topo e uma lâmpada protegida pela garrafa plástica transparente.
O funcionamento é automático. A energia absorvida pela placa durante o dia vai sendo armazenada na bateria. No momento em que não há mais luz sobre o painel, a bateria é acionada e a lâmpada se acende. Ezimar faz o teste. Encobre o painel solar com as mãos e vê a luz surgir. Comemora. Depois, recebe com o mesmo entusiasmo a equipe de vistoria, que verifica se a montagem está correta e finca os postes na terra, contando, é claro, com a ajuda de Ezimar, que já sonha com a próxima melhoria: um sistema de abastecimento de água na propriedade.
 
Ezimar reconstrói a vida depois de perder tudo o que tinha em uma enchente
MAIS QUE LUZ
Além dos postes, a Litro de Luz também fornece à comunidade lampiões de LED que funcionam com a mesma tecnologia e têm a vantagem de ser portáteis. Assim, enquanto uma parte dos voluntários visita as casas e instala os postes, outra ensina, na escola da comunidade, os moradores a fabricar esses equipamentos menores.
Um dos mais envolvidos nessa ação é Santino de Souza, que aparece animado para participar pela segunda vez da oficina. Ele celebra o fato de a comunidade poder se livrar das candeias acesas com querosene. Mesmo tímido, comemora cada parafuso encaixado no equipamento. “Tá legal demais”, elogia, enquanto monta mais um lampião rodeado pelos olhos curiosos de alguns alunos da escola.
O voluntário Eidy Uemura ensina Santino a montar o lampião
Outra observadora atenta é a professora e coordenadora da escola, Carla Socorro da Silva, uma das principais pontes entre os moradores e os voluntários. Nascida em Cavalcante e criada na comunidade vizinha de Campo Alegre, no município de Paranã (TO), ela conta que desejava ser professora desde criança. “Sempre quis me formar para trabalhar na minha comunidade. Sempre tive a esperança de que, aqui, poderia ter minha sobrevivência e crescimento profissional”, afirma.
Carla explica que um dos maiores desafios de ser professora em um local tão afastado é promover o engajamento de alunos e familiares. Por isso, acredita que a visita da Litro de Luz leva muito mais do que postes e lampiões. Ela conta que as crianças sempre buscam algo inovador que as motive a ficar na escola, e a presença da ONG certamente contribui para isso. “Vejo em vocês muitas outras Carlas, pessoas com sede, com vontade de mudar”, fala aos voluntários, devolvendo um pouco de luz a quem foi ali combater a escuridão.
A voluntária Gabriela Guerra e a professora Carla durante brincadeira com os alunos na Escola Municipal América de Deus Coutinho
DOS CINCO CANTOS DO BRASIL
Servidor público, médica, aposentado, artista plástico, advogada, estudante. Os perfis dos voluntários da Litro de Luz são diversos. Para a ação na Comunidade do Prata, a ONG reuniu membros de seis células: Brasília, Campina Grande, Florianópolis, Manaus, Rio de Janeiro e São Paulo. A diversidade de trajetórias, longe de ser um empecilho, ajuda na união do grupo.
No caminho para uma das casas que receberia iluminação, o jipeiro Fernando Lacerda usou a gíria “dar pala”. Imediatamente, outros dois voluntários, a paulista Gisela Provasi e o carioca Saulo Silos, expressam surpresa. No Sudeste, a expressão significa fingir ser algo. “Então aqui significa dar risada?”, espanta-se Gisela.
A diversidade do grupo também fica refletida nas diferentes gerações que compõem os voluntários. Um exemplo é seu Nelson Uematsu que, já na melhor idade, se juntou à Litro de Luz. Engenheiro eletricista aposentado, ele se torna referência entre os colegas e sempre é buscado para tirar dúvidas, explicar o funcionamento dos postes e lampiões e resolver problemas.
Mesmo na correria, o aniversário de um dos voluntários não é esquecido. No terceiro dia da viagem, todos se reúnem no pátio da escola local para cantar parabéns para o carioca Caio. O bolo de banana, feito no dia, ganha velas. A cantoria se estende por vários minutos, com uma música de comemoração emendada na outra. Tem o Parabéns para você tradicional, o parabéns da Xuxa, o Happy birthday…
O trabalho voluntário promove encontro e afetos. Na pausa para o almoço, em Cavalcante (GO), ainda na viagem de ida, Júlia Vaz, especialista em gestão de políticas públicas, conta que não pode ser diferente, lembrando-se de quando participou de outra ação da Litro de Luz, na comunidade de Sol Nascente, em Ceilândia: “Todos ficamos amigos, porque um escovava os dentes enquanto o outro lavava pano de chão na mesma pia”.
A instalação de postes em uma das áreas mais pobres do DF, já considerada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a maior favela do país, ocorreu em 2016. Dessa ação, surgiu uma das maiores histórias de sucesso da ONG: Jonatas Teles, morador da região que se apaixonou pelo trabalho. Hoje, o tecnólogo estuda engenharia elétrica na UnB e é voluntário da organização.
Nelson Uematsu capacita moradores na montagem dos lampiões
UM ABRAÇO
Apesar dos momentos de descontração, a equipe da Litro de Luz não se distrai da tarefa de beneficiar quase 80 famílias, seja com os postes, seja com os lampiões portáteis. Desde o primeiro dia, o foco é criar uma experiência de integração com os moradores. “O nosso diferencial é o jeito como a gente faz. Não é só o que entregamos, mas como”, orienta a voluntária Camila Amui durante a recepção da equipe na Escola América de Deus Coutinho, que funciona como abrigo e centro de referência dos voluntários.
“Cada casa tem sua necessidade, é um desafio que a gente vai enfrentar. É preciso que vocês estejam preparados e possam abraçar essas pessoas do jeito que merecem”, completa Artur Rodrigues, engenheiro elétrico e um dos líderes do grupo.
A preocupação com a sustentabilidade é outro aspecto fundamental. “Precisamos cuidar bem desse espaço. Vamos deixar do jeito que encontramos, até melhor”, pede o voluntário Artur. Os voluntários tomam banho no rio e só usam produtos biodegradáveis. Muitos levam sabão de coco. Além disso, o lixo orgânico gerado é cedido para a alimentação de porcos e outros animais, e o lixo seco, levado de volta para Brasília.
Além da instalação dos postes e das oficinas de montagem dos lampiões, um trabalho é realizado no ambiente escolar. Para compensar os três dias de aula perdidos pelo alunos, para que a escola sirva de abrigo e local de oficinas, uma equipe, em conjunto com professores e moradores, realizaram atividades com os jovens. “O primeiro dia foi muito difícil porque as crianças estavam resistentes, principalmente as mais velhas”, lembra a voluntária Gabriela Guerra. Com sorrisos, ela completa que, a partir do segundo dia, com a atividade de pintura dos postes de iluminação da escola, as crianças começaram a se envolver.
Parte da equipe transporta um dos postes a ser instalado
COMUNICAÇÃO
Outra preocupação é mostrar interesse e preocupação pela forma de viver da comunidade. Desde a chegada, os voluntários recebem instruções de como interagir com os moradores. Um aviso importante: a garrafa pet, na região, é chamada de boia. Quem faz o alerta é a professora e coordenadora da escola, Carla Socorro da Silva, que explica a nomenclatura. Os moradores usam as garrafas como brinquedo e apoio para as crianças: delas, são feitas boias para uso no rio.
Palavras em outras línguas são proibidas durante as visitas. Oferecer comida também, com a justificativa de que seria impossível alimentar a todos. Aceitar comida, mais proibido ainda: “Eles querem oferecer para agradar, mas muitos não têm o suficiente, passam fome”, explica um dos voluntários mais integrados com a região.
Mesmo assim, a hospitalidade dos moradores da comunidade é sentida. Dona Lúcia de Jesus faz questão de que duas voluntárias, que passam para uma visita rápida, entrem em casa: “Podem abancar aí”, diz apontando um banco de madeira perto da entrada. Outro que faz questão de receber bem os visitantes é Guilherme de Almeida, que vai aproveitar a iluminação de um dos postes para construir uma cozinha externa, à pedido da esposa, França.
Ele brinca que realiza todos os desejos da mulher, que passa muito tempo viajando. “Fico uma semana toda sem passar vassoura na casa. Quando ela está perto de chegar, eu limpo tudo. Mas ela vê”, conta. Ainda em tom de brincadeira, seu Guilherme mostra para os voluntários sua “sandália kalungueira”, feita de remendos de outros calçados. Quando uma estraga, usa outra, também já gasta, para consertá-la.
 
NA ESTRADA
A ação na Comunidade do Prata começa oficialmente na madrugada do domingo 3 de setembro. Parte dos voluntários da Litro de Luz e patrocinadores se encontraram no Eixo Monumental, em Brasília, para o início da viagem. De ônibus, os membros seguem até Cavalcante (GO), onde se depararam com a primeira dificuldade. O outro ônibus, mais preparado para a estrada de terra e prometido para levá-los até o destino final, não está lá.
A prefeitura do município goiano fornece uma alternativa: um ônibus escolar. O veículo amarelo tem capacidade para 20 pessoas, o que é insuficiente para os voluntários. Mas, então, a cavalaria chega. Membros do Jipe Clube de Brasília, que tem parceria com a ONG, aparecem e comportam o restante do time. Voluntários e malas se apertaram nos quatro veículos e, os que ficaram de fora entram no carro de um morador de Cavalcante, que se oferece para ajudar.
A partir dali, só estradas de terra. São mais de 100km não pavimentados. A paulista e moradora de Paris Gisela Provasi, advogada e voluntária da área jurídica da Litro de Luz, se encanta: “A terra é vermelha!”
 
SURPRESAS
Duas horas separam a Comunidade do Prata de Cavalcante. Aos poucos, casas surgem na paisagem, mas os voluntários ainda demoram para chegar ao destino: a escola da comunidade, um dos poucos pontos coletivos da região, além da igreja local. Em meio aos arranjos da chegada, retirada de malas e organização dos quartos — os visitantes dormirão nas salas da escola e em barracas nos arredores — surgem outras surpresas.
Camila Amui conversa com dona Lúcia no pátio da escola

A expectativa dos voluntários era encontrar uma vila, mas a comunidade tem configuração incomum. As casas se espalham por cerca de 20km ao longo do rio. Carregar os postes até as casas é inviável, mas o Jipe Clube de Brasília está lá para isso.

A dispersão também dificulta a integração com toda a comunidade. “É mais difícil ter a sensação de comunidade quando a gente chega e não vê as casas e as pessoas”, diz Camila Amui, da área de Desenvolvimento Social da ONG. Para driblar essa dificuldade, ela realizou várias visitas à região, visitando casa por casa. É a única da equipe que conhece todas as famílias da comunidade.
Gênese
A Litro de Luz teve início na Filipinas, em 2002, a partir da vontade do brasileiro Alfred Moser de levar luz barata e sustentável para quem não tem acesso a energia. No Brasil desde 2015, a ONG tem voluntários em seis polos do país. Inicialmente, usava uma tecnologia desenvolvida pela empresa júnior de engenharia elétrica da Universidade de Brasília, a Enetec, mas hoje conta com soluções próprias.
Os caminhos da organização e da Comunidade do Prata convergiram em 2016, quando o diretor técnico da Agência Goiana de Habitação (Agehab), Marcel Silveira, encontrou o ex-presidente da Litro de Luz, Vitor Belota, nas Filipinas e no Equador, em evento da ONU Habitat. A parceria foi oficializada em novembro daquele ano, quando a equipe de voluntários visitou a comunidade pela primeira vez. Desde então, foram mais cinco visitas para conhecer o local.
Os preparativos foram exaustivos para comportar uma logística no mínimo complicada: 56 voluntários para instalar quase 70 postes e 90 lampiões de energia fotovoltaica. “É muito cansativo e muito renovador. Chega aqui, valeu tudo, valeu noite sem dormir, meses de planejamento. É incrível”, comemora a voluntária Júlia Vaz, da equipe de “Gente e Gestão” da ONG.
Silveira conta que, desde 2015, a sustentabilidade virou prioridade na Agehab, e a energia fotovoltaica agora faz parte dos planos para a habitação popular. “Queremos desmistificar a ideia de que esse tipo de energia é caro ou inviável”, afirma. Além disso, as casas da comunidade do Prata foram construídas com tomadas, fiação e tubulação, mesmo que ainda não tenham acesso a água e luz, porque o plano é investir nessas áreas no futuro.
Entre a última grande ação da ONG, em março, em Manaus, e esta, os postes e lampiões mudaram. A equipe precisou se atualizar com vídeos de instrução, antes da viagem, e com oficinas de capacitação, no primeiro dia na comunidade do Prata. Além disso, o manual da organização foi reestruturado para que as instruções sejam totalmente ilustrativas, sem depender de leitura. O guia foi entregue a todos os moradores da comunidade do Prata para incentivar a manutenção dos equipamentos. Em outubro, parte dos voluntários volta à região para fazer vistoria nos postes e lampiões.
Um dos muitos desafios encontrados pela organização nos meses de preparação foi o orçamento. A meta para realizar a ação na comunidade kalunga era de R$ 80 mil. A Litro de Luz tem, constantemente, uma área do site em que visitantes podem doar o valor equivalente a algum material – desde o LED, de R$ 20, até o painel solar, de R$ 150 – ou ao poste e ao lampião completos. Para atingir o objetivo financeiro, a entidade contou ainda com patrocínios. O principal foi o do Na Praia, evento de Brasília que, neste ano, foi iluminado pela tecnologia da ONG como contrapartida.
Da esquerda: Júlia Vaz, Alex Voigt, Beatriz Lisboa e Arthur Carvalho, voluntários

Fonte: http://especiais.correiobraziliense.com.br/comunidade-kalunga-ganha-iluminacao-da-ong-litro-de-luz